“Uma Abelha na Chuva”

Uma Abelha na Chuva é o título de um filme, baseado na obra homónima de Carlos de Oliveira, realizado por Fernando Lopes, ilustríssimo filho de Maçãs de Dona Maria.

Fernando Marques Lopes nasceu a 28 de Dezembro de 1935, no lugar dos Cabaços, vila de Maçãs de Dona Maria, concelho de Alvaiázere. Era filho de Eugénio Dias Lopes e de Elvira Marques Lopes e faleceu a 2 de Maio de 2012, em Lisboa 1.

Hoje, vamos falar sobre Uma Abelha na Chuva que é a segunda longa-metragem da extensa obra cinematográfica realizada por este ilustre conterrâneo, percursor do Cinema Novo em Portugal, após Fernando Lopes ter estagiado três meses em Hollywood. Esta película é baseada (como acima se referiu) no romance de Carlos de Oliveira 2, escrito em 1953, realizada por Fernando Lopes que é, sem sombra de dúvidas, um dos nomes sagrados do cinema português.

O filme retrata a vida de um casal a viver num meio rural, de um país isolado e pobre, vítima de ideologia totalitária, onde a sua relação está longe de ser um mundo de felicidade. Neste registo estão bem patentes as três classes sociais que formavam o meio rural português da época: o Povo, a Burguesia e a Aristocracia.

Como já dissemos, anteriormente, os filmes deste nosso conterrâneo são quase todos (para não dizer todos!) de certa forma, autobiográficos ou seja, falam do autor. Uma Abelha na Chuva não foge a esta realidade. Foi realizado na Região Centro, na cidade da Figueira da Foz, cidade junto ao mar e não muito longe da vila de Maçãs de Dona Maria, sua terra natal. Tem como protagonistas um casal de proprietários rurais pouco felizes de uma pequena vila do interior de Portugal. O que facilmente se pode associar ao início da história de vida de Fernando Lopes.

O filme Uma Abelha na Chuva começou a ser filmado em 1968, mas só ficou pronto para ser exibido em Agosto de 1971. A sua estreia veio a acontecer em 13 de Abril de 1972, pelas 21h45m, no antigo cinema Estúdio, no qual esteve em exibição durante sete semanas. A sala do cinema Estúdio situava-se no último andar do cinema Império (actual sede da igreja IURD), na Alameda D. Afonso Henriques, em Lisboa. Era considerada uma sala de elites porque acolhia filmes mais intelectuais, ou seja de mais difícil compreensão. Provavelmente a razão de ser da incorporação desta sala no cinema Império deve-se à sua proximidade com o grande pólo de ensino universitário, o Instituto Superior Técnico, um público mais interessado neste género de filmes.

O “Suplemento Literário” do jornal Diário de Lisboa publicado em 7 de Abril de 1972 é, todo ele, dedicado a este filme. A primeira página deste Suplemento é totalmente preenchida pelo seguinte texto de promoção: “ONZE MIL METROS DE FITA REVELADA PARA DOIS MIL A VER NA TELA; OITO SEMANAS DE FILMAGEM PARA MAIS DE UM ANO DE MONTAGEM; CERCA DE OITO CENTOS CONTOS DE CUSTO TOTAL, COM OS JUROS E MAIS OS GASTOS DE UMA PRODUÇÃO QUE NÃO TINHA À PARTIDA OS CAPITAIS SUFICIENTES; UM FILME PORTUGUÊS ARRANCADO A FERROS: UMA ABELHA NA CHUVA; GENTE DO FILME A GANHAR CEM ESCUDOS POR SEMANA NA FIGUEIRA DA FOZ, ALMOÇANDO SANDES; MÁQUINA ARRIFLEX POR EMPRÉSTIMO; A PENSÃO POR PAGAR; DUAS CÓPIAS PARA CIRCULAÇÃO COMERCIAL DO FILME DE FERNANDO LOPES QUE VAI APARECER EM LISBOA; UM DISCURSO FÍLMICO QUE SE INSPIRA NUM TEXTO DE CARLOS DE OLIVEIRA; OU UMA PROPOSTA DECISIVA PARA A MODERNIDADE QUE NÓS, OS DE HOJE, EXIGIMOS DO CINEMA PORTUGUÊS.”

No seu interior podemos ler vários textos de jornalistas, escritores e críticos de cinema sobre este trabalho cinematográfico: Nuno Júdice, Gastão Cruz, Alexandre Babo, Vítor Silva Tavares, Eduardo Prado Coelho, Augusto Abelaira, Manuel Machado da Luz, José Cardoso Pires, Fernando Correia Marques, Fernando Luso Soares, Rocha de Sousa, Lauro António e Carlos Oliveira, autor do romance.

A crítica é muito favorável, quase unânime, na ideia de que estamos perante um dos melhores filmes realizados até à data: Alexandre Babo começa por nos dizer que “estamos perante uma obra que pode ombrear com as melhores do cinema actual. Não em termos relativos de cinema português, mas do cinema do mundo. Pela primeira vez, doa a quem doer, embora pareça que não devesse doer a ninguém”; Eduardo Prado Coelho acrescenta que “vi duas vezes Uma Abelha na Chuva e saí de lá sempre acrisolado de espanto”; O escritor José Cardoso Pires afirma que “É um filme notável – ferozmente pessoal”; Mais à frente o crítico de cinema Lauro António diz que é um “Brilhante exercício de estilo, Uma Abelha na Chuva é filme a não perder”; Por fim, o autor do romance Carlos Oliveira considera o filme baseado no seu romance “um objecto estético excepcional” e acrescenta que “o que Fernando Lopes chama a ‘leitura crítica’ do meu romance acaba afinal por ser a leitura mais profunda de Uma Abelha na Chuva e aquela que, portanto, me agrada mais.”

Na contra-capa da apresentação deste filme pode ler-se: “Uma Abelha na Chuva é a leitura cinematográfica de Fernando Lopes do romance homónimo de Carlos Oliveira, num filme que encena de forma admirável um Portugal rural desencantado, sombrio e enclausurado, no final da década de 60, e que um crime brutal vem abalar. As paisagens sonoras abstractas, a impressionante fotografia e as inesquecíveis interpretações de Laura Soveral e João Guedes juntam-se numa obra de excelência do cinema português.”

1) Ver restante biografia, em “Fernando Lopes Por Cá”, Outubro de 2015.

2) Carlos Oliveira era filho de imigrantes portugueses radicados em Belém do Pará, Brasil, onde nasceu a 10 de Agosto de 1921. Aos 2 anos de idade vem com os seus pais para Portugal, fixando residência em Cantanhede. Em Coimbra, concluiu o curso de Ciências Histórico-Filosóficas na Faculdade de Letras. Uma Abelha na Chuva é o seu quarto romance escrito em 1953 (a imagem da capa do livro é da 3ª edição, 1963), sendo considerado um dos grandes responsáveis pelo movimento literário do Neo-Realismo em Portugal. Faleceu em 1 de Julho de 1981.

Ficha Técnica:
Título: Uma Abelha na Chuva
Realizador: Fernando Lopes
Produtor: Fernando Matos Silva
Ano: 1971
Estreia: 1972
Classificação: Maiores de 12 anos
Duração: 1h.05m
Actores: Laura Soveral, João Guedes, Zita Duarte, Ruy Furtado, Carlos Ferreiro, Fernando de Oliveira, Geny Frias e Maria Tereza.
Participação especial: Companhia de Teatro Desmontável Rafael de Oliveira
Musica Original: Manuel Jorge Veloso
Edição: Madragoa Filmes
Data de edição: 2002
Formato: DVD

Uma Abelha na Chuva     Uma Abelha na Chuva- livro

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